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Marcar no Google AgendaExposição internacional no Sesc, com infraestrutura invisível da IA e seus impactos
26/08/2026Em 1955, o matemático John McCarthy cunhou o termo “inteligência artificial”. Desde então, especialmente a partir do final dos anos 2000, sistemas de IA passaram a fazer parte da economia, da cultura, da política, dos meios de produção e das operações militares em escala global. Em cartaz no Sesc 24 de Maio, a exposição O Mundo Através da IA propõe uma leitura histórica e crítica desse processo, questionando o que a inteligência artificial carrega consigo — e o que seus sistemas preferem ocultar.
Com curadoria do pesquisador Antonio Somaini, professor da Sorbonne e de Harvard, a mostra reúne cerca de 70 obras de 29 artistas de 15 países, distribuídas em oito seções temáticas. Concebida e organizada pelo centro de arte parisiense Jeu de Paume, a exposição chega a São Paulo com sete cápsulas do tempo produzidas especialmente para o contexto brasileiro. A mostra permanece em cartaz até 29 de novembro, com entrada gratuita.
Inteligência artificial também é tecnologia de guerra e poder
Entre os artistas participantes estão representantes do Brasil, Alemanha, Argentina, Arábia Saudita, Senegal, Reino Unido, França e outros países. Os brasileiros ocupam lugar de destaque na exposição, com trabalhos que ampliam os eixos curatoriais a partir de perspectivas relacionadas à produção e ao pensamento local.
A mostra aborda as infraestruturas físicas e humanas que sustentam os sistemas de IA, o impacto ambiental de uma tecnologia frequentemente percebida como imaterial e as heranças coloniais presentes nos algoritmos de reconhecimento visual. Ao relacionar passado e presente, as obras mostram como o desenvolvimento dessas tecnologias também está ligado a dinâmicas históricas de poder, exploração e controle.
A instalação Calculando Impérios: uma Genealogia da Tecnologia e do Poder desde 1500, de Kate Crawford e Vladan Joler, é a obra de maior escala da exposição. Com 12 metros, o trabalho mapeia relações entre tecnologia e formas históricas de dominação e extração de recursos, estabelecendo conexões com a lógica de funcionamento da era digital.
A relação entre inteligência artificial e conflitos também aparece em trabalhos que evidenciam o uso dessas tecnologias em estratégias militares e sistemas de vigilância. Dessa forma, a exposição desloca a discussão sobre IA para além de ferramentas de uso cotidiano e mostra sua participação em estruturas de poder que afetam diferentes dimensões da sociedade.
Por trás da automação, existe trabalho humano
O mundo do trabalho é outro dos eixos centrais da exposição. Por trás da promessa de automação, existem atividades humanas que permanecem invisíveis, como a rotulagem de imagens utilizada para ensinar algoritmos a reconhecer objetos e pessoas e a moderação de conteúdos realizada para grandes plataformas digitais.
O filme imersivo Acapulco (2022-2024), de Bruno Moreschi e Pedro Gallego, investiga justamente esses bastidores. A obra dialoga com a história do Amazon Mechanical Turk, plataforma cujo nome faz referência a um autômato do século XVIII que simulava jogar xadrez de maneira independente, embora escondesse uma pessoa responsável pelos movimentos.
A mesma lógica aparece no trabalho contemporâneo realizado para alimentar sistemas de inteligência artificial. Pessoas executam tarefas repetitivas e recebem remunerações reduzidas para que as máquinas possam aprender a interpretar imagens, textos e outras informações.
Giselle Beiguelman participa da exposição com duas obras. Beleza Corrosiva (2025) traduz em imagens os impactos ambientais das tecnologias digitais, mostrando rios tomados por equipamentos obsoletos e paisagens em que natureza e descarte se confundem. Já Botannica Tirannica (2022) examina sistemas de classificação da botânica clássica e as marcas de dominação presentes em práticas científicas historicamente legitimadas, relacionando-as à lógica dos algoritmos atuais.
Em Álbum de Desesquecimentos (2024, em curso), Mayara Ferrão parte da ausência de registros visuais sobre experiências íntimas de mulheres negras e originárias durante o período colonial para propor uma reconstrução simbólica mediada pela inteligência artificial.
Já Cesar & Lois apresentam Culturas Degenerativas: Impacto Ambiental da Inteligência Artificial, instalação na qual microorganismos se alimentam de livros relacionados ao desejo humano de controlar a natureza, enquanto seus comportamentos são incorporados a sistemas de IA em um processo contínuo de transformação e corrosão.
Sete cápsulas do tempo contam uma história da IA no Brasil
A edição paulistana inclui sete cápsulas do tempo, vitrines distribuídas pelo percurso da exposição e relacionadas aos diferentes núcleos temáticos. Produzidas exclusivamente para esta edição por uma equipe curatorial brasileira formada por Giselle Beiguelman, Bruno Moreschi, Gabriel Pereira e Mariana Tamashiro, em diálogo com Antonio Somaini, as cápsulas apresentam uma leitura da história da inteligência artificial no Brasil sem seguir uma narrativa linear ou celebratória.
Uma delas, coordenada por Giselle Beiguelman, reúne estudos eugenistas dos séculos XIX e XX, com materiais sobre fisiognomia e antropologia criminal do médico Raimundo Nina Rodrigues, fotografias de cangaceiros decapitados expostos em praça pública no sertão de Alagoas e o Boletim de Eugenia, de 1929. Os documentos são relacionados às obras da exposição pela discussão sobre como sistemas históricos de classificação dos corpos podem encontrar correspondências nos atuais algoritmos de reconhecimento visual.
As demais cápsulas percorrem diferentes momentos da produção tecnológica e artística brasileira. Entre os materiais estão registros da arte computacional pioneira no país, trabalhos de Waldemar Cordeiro, referências ao movimento Poema/Processo e à produção experimental dos anos 1980.
O filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser, que viveu durante décadas no Brasil e manteve contato com artistas e pensadores locais, também aparece por meio de documentos de seu arquivo. A exposição ainda aborda a taxonomia botânica colonial, o pixo paulistano como sistema de código visual e Hercule Florence, inventor franco-brasileiro que nomeou e descreveu o processo fotográfico antes de a técnica receber esse nome na Europa, em 1839, a partir de experimentos realizados no interior de São Paulo.
A exposição passou por Campinas entre novembro de 2025 e abril de 2026, em configuração semelhante à edição apresentada atualmente na capital paulista.
Serviços
Exposição: O Mundo Através da IA (Le Monde selon l'IA);
Período: 6 de agosto a 29 de novembro de 2026
Horário: terça a sábado, das 9h às 21h; domingos e feriados, das 9h às 18h;
Local: Sesc 24 de Maio – Rua 24 de Maio, 109, República, São Paulo (SP);
Classificação: Livre;
Entrada: gratuita;
Agendamento de grupos: agendamento.24demaio@sescsp.org.br
Serviço de van: transporte gratuito até as estações de metrô República e Anhangabaú. As saídas acontecem a cada 30 minutos, pela portaria do Sesc 24 de Maio, de terça a sábado, das 20h às 23h, e aos domingos e feriados, das 18h às 21h.
Artistas presentes: Agnieszka Kurant, Andrea Khôra, Bruno Moreschi, Cesar & Lois, Emmanuel Van der Auwera, Érik Bullot, Estampa, Giselle Beiguelman, Grégory Chatonsky, Gwenola Wagon, Hito Steyerl, Holly Herndon & Mat Dryhurst, Inès Sieulle, Joan Fontcuberta, Julian Charrière, Julien Prévieux, Kate Crawford, Linda Dounia Rebeiz, Marcela Magno, Mayara Ferrão, Meta Office – Lauritz Bohne, Lea Scherer e Edward Zammit, Nora Al-Badri, Nouf Aljowaysir, Pedro Gallego, Sasha Stiles, Trevor Paglen e Vladan Joler.
Editado por Karina Rodrigues às 26/08/2026



























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